Por que ele quer quebrar o Facebook

No fim de 2010, Mark Zuckerberg comandou um evento do Facebook nos Estados Unidos para apresentar a nova versão de seu aplicativo para smartphones. Até então, usar o Facebook no celular era uma experiência sofrível. Na entrevista coletiva, um jornalista perguntou a Zuckerberg: “E quando veremos o aplicativo para iPad?”. Incomodado, ele respondeu: “O iPad não é um dispositivo móvel. Próxima pergunta!”. O jornalista rebateu: “Não é o que a Apple pensa”. E Zuckerberg, encerrando o assunto, disse: “Me desculpe, mas o iPad é um computador”.

O episódio diz muito sobre a evolução do Facebook e do próprio Zuckerberg nos últimos anos. Em 2010, o Facebook tinha 600 milhões de usuários. Eles acessavam a rede social prioritariamente pelo PC. E, como a resposta dada por Zuckerberg sugere, ainda não tinha se encontrado no promissor mercado de smartphones e tablets. Bastaram menos de quatro anos para o serviço conseguir dobrar sua base de usuários para 1,3 bilhão, com pouco mais de 1 bilhão de downloads do aplicativo para celulares e tablets. Zuckerberg amadureceu e é mais lembrado hoje por suas qualidades como empreendedor que por seus lapsos de arrogância. Foi ele que comandou com êxito a guinada da empresa do estagnado mundo dos PCs para o emergente universo dos smartphones e tablets. E é ele que, já há algum tempo, deu início à maior transformação da empresa. O Facebook quer deixar de ser rede social para se transformar numa fábrica de aplicativos. “Há diversas formas de compartilhar conteúdo na internet”, diz Zuckerberg. “Concentrar todas num único aplicativo não me parece o melhor formato para o futuro.”
Essa visão começou a ser aplicada há dois anos, quando o Facebook pagou US$ 1 bilhão pelo aplicativo de fotos Instagram. Em 2014, tudo ficou mais claro. Em janeiro, a companhia anunciou o Facebook Creative Labs, um centro de desenvolvimento de novos aplicativos. Em fevereiro, desembolsou US$ 16 bilhões para comprar o WhatsApp, o principal aplicativo de troca de mensagens do mundo. Em abril, “desligou” a função chat do Facebook e passou a obrigar os usuários a baixar um programa próprio para a tarefa, o Facebook Messenger. Naquele mês, Zuckerberg também comprou, por uma quantia não revelada, o Move, um popular aplicativo de exercícios físicos. Espera-se ainda o lançamento do Slingshot, a resposta de Zuckerberg a Evan Spiegel, fundador do Snapchat, aplicativo de troca de vídeos e fotos que se tornou febre entre os jovens americanos. Spiegel recusou uma oferta de US$ 3 bilhões de Zuckerberg no ano passado e agora terá de encarar um clone.

No início do ano, a iStrategy Labs, uma consultoria americana especializada em mídias sociais, publicou um estudo mostrando que a proporção de usuários adolescentes do Facebook caíra 25% desde 2011. Eles migraram para aplicativos de uso específico, como o Snapchat. Dados assim acenderam luzes amarelas no painel de controle de Zuckerberg. A lógica dos movimentos recentes da companhia é a seguinte: se as pessoas buscam outras formas de compartilhar informações on-line, o Facebook precisa ter bons produtos em todas essas novas frentes. Tudo sempre com o objetivo de alimentar a principal fonte de receita: anúncios, com base nas informações que trocamos pela internet.

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A nova estratégia do Facebook revela os limites da rede social que reúne todo mundo e todas as funções. “Se a tendência desse mercado continuar a apontar para aplicativos com funções específicas, o benefício de ter 1 bilhão de usuários num só lugar começa a ser colocado em xeque”, afirma o americano Steve Weinstein, analista sênior da consultoria ITG Investment Research.

A estratégia oferece riscos. Em algum momento, Zuckerberg terá de impor sacrifícios a seu produto principal, que reúne bilhões de usuários, para conseguir emplacar uma nova ferramenta. Se isso não for feito com cautela, poderá gerar prejuízos. A rede social Facebook é a maior responsável pela receita de US$ 7,8 bilhões da empresa em 2013. O Facebook também precisará encontrar a melhor forma possível de gerar receita sem quebrar a confiança dos usuários. Por enquanto, aplicativos como Instagram, WhatsApp e Move são tratados pelo Facebook como produtos separados. Pelo menos oficialmente, as informações presentes ali não são usadas para vender anúncios específicos. Todas as tentativas de mexer nisso enfrentaram resistência. No final de 2012, o Instagram atualizou seus termos de privacidade e deixou uma brecha para que fotos publicadas ali pudessem ser vendidas pelo Facebook. A gritaria foi tamanha que a companhia voltou atrás. Recentemente, houve uma mudança nos termos de privacidade do Move. Até então, havia garantia que as informações dos usuários não seriam compartilhadas com terceiros. Mais uma vez, a notícia gerou protestos.

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Do ponto de vista financeiro, a estratégia de quebrar o Facebook em pedacinhos não é original. É a velha máxima: “Diversificar para reduzir os riscos”. Mesmo assim, ela foi renegada por diversas gigantes do setor de tecnologia nos últimos anos, que se acomodaram à liderança e foram desbancadas por concorrentes. Nokia, Motorola e Yahoo são casos clássicos. Todas naufragaram.

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Em março, outra aquisição do Facebook surpreendeu aos analistas de mercado. A companhia pagou US$ 2 bilhões pela Oculus VR, criadora dos melhores óculos para realidade virtual. Zuckerberg quer usar o aparelho como uma espécie de portal. Um aluno brasileiro poderá assistir a uma aula sentado numa sala virtual de uma escola americana, curtir, comentar e compartilhar o conteúdo. É cedo para dizer se o Facebook conseguirá na próxima década ter o mesmo sucesso de seus primeiros dez anos. Mas já dá para dizer que ele será bem diferente daquele que estamos acostumados a usar.

O Facebook do futuro

Em dez anos, a rede social reuniu 1,3 bilhão de usuários no mesmo ambiente virtual. A estratégia agora é separar o império em vários aplicativos para cada função.

Fonte: epoca.globo.com/ideias

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